quarta-feira, novembro 19, 2008

Empregos por encomenda

Se é obrigação do estado dar emprego a todos quantos tiram um curso superior apenas porque têm um canudo, então esperem pelo fim deste ano lectivo. Terei, então, razões para exigir um emprego. Mas não o farei. Não o farei porque escolhi o curso que escolhi, depois de muito experimentar, infelizmente, apenas porque sinto que tenho vocação e muito gosto em fazer aquilo para que agora me preparo. Escolhi até um curso que não me dá garantias nenhumas de sucesso a não ser por acreditar nas minhas próprias capacidades e talentos.
Quando vejo os enfermeiros exigirem que o Serviço Nacional de Saúde os contrate, não consigo deixar de pensar na mentalidade estúpida que grassa o meu país em relação ao ensino superior. Estes cidadãos que tiraram o curso de enfermagem não o fizeram por gosto, fizeram-no pelo emprego. E é assim com muitos cursos e profissões. Muito pouca gente em Portugal escolhe um curso baseado no seu gosto ou nos seus talentos. É sempre a chave para uma profissão que procuram, muitas vezes nem interessa qual.
Até o primeiro argumento que ouço chorado nos telejornais nacionais é de que existem muitos licenciados em enfermagem a sair directamente para o desemprego. Ora, se alguém os obrigou a tirar o curso, peçam responsabilidades a essa pessoa ou entidade. Se ninguém os obrigou, que assumam eles a responsabilidade da sua escolha. E se, como se argumenta depois, existe falta de enfermeiros no SNS, então porque é que a procura é baixa? Se houvesse assim tanto lugar por preencher os empregadores estariam um pouco mais próximos do desespero e ofereceriam melhores contratos, com a muito exigida efectividade e tudo.
Também já ouvi dizer que os enfermeiros merecem consideração especial porque tiram o curso motivados pelo serviço em prol do próximo. Se assim fosse não reclamariam estatuto, como fazem nas suas batalhas quixotescas para não se sentirem inferiores aos médicos, nem contratos assim ou assado. Os enfermeiros, como os médicos, os professores, os carpinteiros, etc., estão na profissão que estão para ganhar dinheiro vendendo serviços, de preferência fazendo uma coisa de que gostam e para a qual sentem que têm vocação. Se assim não é, tenho pena.

2 comentários:

whity disse...

Durante uma discussão que se criou no contexto de um projecto da minha turma do 12º ano, que se relacionava com a procura de faculdades ou de outras saídas possíveis para o pós secundário, entrei numa troca de ideias com a professora, também directora de turma. Eu dizia que tirar o curso, para mim, tinha como objectivo cultivar-me e realizar-me. A isto a minha professora respondeu se eu ia viver de cultivar-me. Eu rematei dizendo que nos dias que corriam (já) não havia emprego para todas as pessoas de canudo na mão e que se tivesse de escolher um curso superior para tirar, então escolheria tendo em conta os meus gostos e não a possibilidade de conseguir arranjar emprego. Até porque fosse qual fosse o curso o emprego ia ser escasso.

Infelizmente, em Portugal, ainda se acha que ter um curso é conseguir emprego, é ser-se alguém melhor, é um monte de outros mitos que lhe estão associados.

Hoje em Portugal existem demasiados licenciados e demasiados licenciados sem cultura nenhuma que nem sequer sabem escrever ou falar correctamente em Português.

Sabores disse...

Inicialmente entrei para um curso que era O curso para O emprego. Depois mudei. Fui para o curso que gostaria de Trabalhar. Aqui estou eu...sem nada que me arrepender. Arranjei emprego e trabalho;)