terça-feira, agosto 02, 2011

Na praia (daqui a pouco, pronto)

Aqui me tenho de volta, depois de muita procrastinação — mal de que sofro com frequência, confesso, mas que só uma vez me deixou ficar mal. Posso inventar mil e umas desculpas para não ter vindo cá escrever durante todo este tempo, mas a principal é que não ganho nada além da satisfação por fazê-lo. Também não me seria difícil inventar uma outra razão para cá voltar, mas a verdade é que já tinha saudades de cá vir treinar os dedos e o verbo.
Estou na Ilha do Porto Santo, que alguns — cada vez mais — dizem ser de Porto Santo, não sei porquê, e que é, como cantava o saudoso Max, a jóia mais antiga de Portugal e a melhor praia que conheço. Fui recebido ontem de manhã por um céu amuado, a conter as lágrimas a custo. Aproveitei para arrumar a tralha e descansar das duas horas e meia passadas ao sabor do embalo irregular do Oceano Atlântico, depois de uma noite em que mal dormi.
Hoje o céu parece ter esquecido as lágrimas, mas ainda não se recuperou totalmente do egoísmo que o impede de soltar o sol. Mesmo assim, o plano é ir já para água e depois descansar na fina areia na companhia de um Nobel da Literatura desactualizado, mas bastante entretido. A ausência de pruridos politicamente correctos em redor da raça e/ou condição social — por não estarem ainda na moda, à época — diverte-me, e torna a descrição mais honesta e real. Se alguma curiosidade despertei, sacia-la-ei explicando que estou a ler Plain Tales from the Hills, de Rudyard Kipling.
Tenho que me apressar; o tempo esvai-se e ainda tenho que moldar uma espreguiçadeira na areia, para maior conforto na leitura.

terça-feira, novembro 16, 2010

Novíssimas novidades, até!

Quantos de nós já não gozaram de alguém que diz "subir para cima" ou "descer para baixo"? Mas estas duas expressões podem ter usos perfeitamente válidos, como a indicação do local para onde se sobe ou desce — subir ali para cima, ou para cima do banco. Também posso dizer que vou subir ali para baixo (apesar de causar alguma estranheza), tendo em conta que estou num local mais alto que o destino, e que para chegar a esse destino preciso, eventualmente, de subir — estou em cima da mesa e vou para um banco que está longe demais para fazer a deslocação directa. Agora... "novas novidades"? Se são novidades, está implícito que são novas. Se são novas em relação às anteriores, estas já não são novidades, logo não há necessidade de as distinguir das "novas".

Ouvi esta expressão na TSF, dito por uma investigadora médica. A formação superior deste país parece que se limita a treinar técnicos que seguem protocolos à risca, mas não os educa para a eventualidade de terem que lidar com situações fora do alcance da mera técnica. Esta investigadora, que ainda por cima quer dar a cara (neste caso foi a voz) por aquilo que produz na sua investigação, porque não caiu no estúdio por acidente, deduzo, deu vários pontapés na lógica retórica e até na construção gramatical das frases. Mostrou, no fundo, o analfabetismo que grassa no ensino superior português. A culpa não é dela; é de quem quis extinguir Provas Globais e coisas que tais; a culpa é de quem abafou ou extinguiu — até perseguiu — a exigência pela excelência naquilo que se produz, seja acessório, ou não, à linha principal da sua educação. É, no mínimo, uma questão de imagem. Mas é muito mais.

terça-feira, agosto 31, 2010

As (agora) seguríssimas arribas

O burocrata, em nome do estado que cuida de todos nós, acaba de tirar um grande peso de cima dos ombros do cidadão.

Na sua fome por um bocadinho de areal onde estender a toalha, o incauto veraneante põe-se, com frequência, em risco ao lado das periclitantes arribas que cercam, ameaçadoras, muitas praias do sul de Portugal. Esta irresponsabilidade do puéril cidadão, claramente incapaz de cuidar de si próprio, pode custar aos cofres do estado uns quantos euros, até porque a sua incapacitação representa no mínimo, uma perda de receita para os cofres do estado, tinha de ser combatida.

Começou, o comovido burocrata, por colocar placas de aviso em que se avisava o turista, nacional e estrangeiro, de que as bonitas praias do sul de Portugal são, afinal, armadilhas para os mais incautos. Mas o burocrata, faminto por regulamentos, selos, carimbos e coimas, sentiu uma justificada revolta por haver alguns intrépidos veraneantes que trocavam a segurança da virtual vedação por — imagine-se a imoralidade! — um pouco de isolamento — padecem de alguma patologia anti-social, decerto.

Acometido, então, por um superior sentido de serviço em prol da segurança alheia e do bem estar das estatísticas do estado, o burocrata decidiu proibir, sob pena de multa, a aproximação, por fugaz que seja, do indivíduo ao espaço onde o técnico, melhor amigo do responsável regulador, decide ser grande o risco de ficar soterrado. E por “grande”, para assegurar que as variações nos cálculos probabilisticos do incansável técnico não dão para o torto, entende-se “pouco mais que ínfimo”. Não se pode negar que é mais seguro prevenir.

Esta lei, que pune com multa até o distraído que se atreva a ir ler — por curiosidade, que seja — os sinais de perigo encostados à insegura parede de areia, mostra o quanto somos todos importantes para o estado, nem que seja como números numa qualquer estatística que se quer sempre positiva.

Que o estado nos proteja de nós próprios, amén.

sexta-feira, abril 02, 2010

Mas, afinal, estes incompetentes não fazem "caça à multa"? O ultraje!


Boa notícia, não? Pelos vistos, nem por isso. Os responsáveis pela Unidade Nacional de Trânsito da GNR estão preocupados com a "substancial" quebra de receitas que daí advém. E eles não consideram sequer possível que o condutor português esteja mais respeitador da lei; é a falta de zelo por parte dos guardas da brigada — desculpem: da Unidade — a grande responsável por tão inconveniente quebra.
Pensar-se-ia — alguém de juízo — que esta alteração nos números era algo de positivo, mas não. As receitas são o mais importante, pelos vistos, na actuação desta UNT.

domingo, março 28, 2010

Condução de erudição científica

Tive, recentemente, oportunidade de ver como andam os testes de código necessários para obter a carta de condução. Imagina o leitor que, uma vez que a minha licença de condução tem já quatorze anos, muita coisa mudou desde o meu tempo. Alguns pormenores mudaram, algumas regras foram adicionadas e outras exigências se infiltraram no conhecimento necessário.
Mais do que uma pergunta das que li tinha pouco a haver com o código da estrada per si, mas houve uma que me provocou maior alergia (e sabe quem me conhece que, infelizmente, sou dado a estas alergias), por não ter ponta por se pegue em termos de conhecimento imprescindível para a condução. Testava-se, então, a ignorância do testado acerca do que é a visão estereoscópica. Ora, na condução, a estereoscopia ocular usa-se, quer se queira ou não, quer se saiba o que é ou não.
Como me tenho esforçado por ser um cidadão que contribui para o avanço da sociedade e das burocracias que a unificam (permitam-me o sarcasmo), decidi compôr uma questão para o dito exame. Pensei em algo que fizesse falta saber; uma dúvida justa que penso incomodar a grande maioria dos condutores do sexo masculino. A pergunta, e respectivas opções de resposta, seria algo como isto:

Em plena marcha, o condutor sente comichão no escroto. Qual das seguintes opções é a correcta?
A - Não deve coçar o dito, para não perder o uso de uma das mão na condução, aguentando até a próxima oportunidade para parar o veículo e então aliviar-se desse incómodo.
B - Deve coçar de imediato, uma vez que que tal condição é passível de provocar nervosismo ao condutor. A última coisa que pretendemos na estrada é um condutor nervoso.
C - Estando acompanhado, deve pedir ao passageiro do lado que lhe alivie a comichão. Pode ser o começo de uma grande amizade.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Nomenclaturas e parvoíces

Num edital de uma câmara deste nosso país de génios burocráticos podia ler-se: "proceder à captura, alojamento e abate de canídeos e gatídeos, nos termos da legislação aplicável". Uma rápida procura levou-me a fazer uma procura da palavra gatídeo no Google. Estranhamente - ou talvez não, tendo em atenção a parvoíce que grassa neste país - aparecem 626 resultados. Juntei à procura a palavra edital, e obtive 402 resultados, entre editais de câmaras e juntas de freguesia.
Ora urge, aqui, perguntar...: mas que raio é um gatídeo? Que família do Reino Animal é esta cujos espécimes, segundo os burocratas, é preciso registar e/ou abater nas mesmas condições aplicáveis aos animais da família dos canídeos. Mas canídeos sei bem o que são. Gatídeos... não sei, confesso.
A família dos canídeos (canidae) inclui, entre outros, o lobo (Canis lupus), o seu correspondente doméstico, a subespécie (Canis lupos familiaris), e a raposa (Vulpes vulpes). A família Canidae está incluída na Ordem Carnivora (ou dos carnívoros) cujas famílias se podem ver aqui. Não vislumbro, em lado nenhum, a família dos gatídeos. Talvez nem sejam carnívoros.
Podem pertencer, por exemplo, à Ordem Perissodáctila, que inclui muitos animais domésticos, raramente de estimação. Mas não vejo muitos cavalos, por exemplo, pelas nossas cidades abandonados e à procura comida no lixo. Mas novas procuras na Wikipedia me convencem de que a família gatidae pura e simplesmente não existe.
Então... a que animal se referem os nossos sapientes burocratas?

sexta-feira, outubro 09, 2009

Humor Sueco...

Se eu hoje acordasse com a notícia de que recebi o Prémio Nobel da paz, tendo feito coisa nenhuma que me fizesse sentir merecedor de tal distinção, a humildade seria avassaladora.

quinta-feira, setembro 10, 2009

A seguir, vem o quê?


Estes bem intencionados doutores levam a sua profissão tão a sério, que prestam os serviços de aconselhamento médico sem que tal lhes fosse contratado, e ainda passam receita para uma população inteira (incluindo quem não lhes pediu a opinião, por mais correcta que esta seja). Parece-me um abuso, mas eu sou um ignorante retrógrado que não acredita, de todo, que o estado é a cura para os males do mundo.
Falta, agora, censurar a publicidade aos produtos alimentares que potenciam a aparição de doenças como a obesidade ou as cardíacas. Fast-food gordurenta ou refrigerantes açucarados são acusados pelos especialistas de participarem no desenvolvimento de doenças daqueles tipos. Já imaginaram quantos engordaram por comer um hamburguer do MacDonalds por cada golo do Nuno Gomes? (Pronto, do Nuno Gomes... concedo que não são muitos hamburgueres.) E quantos não consumiram nocivas quantidades de açúcar, cafeína, e outros ingredientes por causa dos sempre memoráveis anúncios da Coca-Cola?

(continuarei a queixinha)

quarta-feira, setembro 09, 2009

Censura. Não há outra forma de o classificar

O livro do ex-inspector Gonçalo Amaral foi censurado. Por melhores que sejam as intenções que levam a esta decisão, não deixa de se tratar de censura. Por mais que se discorde ou abomine o que está lá escrito, por mais incompetente que se julgue o ex-inspector, nada justifica que ele não possa divulgar as suas ideias e teorias, fazendo o lucro que quem compra lhe confere.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Asfixia Madeirense

Todos quantos dizem que há asfixia democrática na Região Autónoma da Madeira não acreditam no voto dos madeirenses.
Quem diz tal coisa não deve ter reparado que foi no meu distrito natal que dois autarcas (do PSD, não se enganem) foram julgados e condenados, com rapidez, por corrupção, sem interferência de nenhum poder sombrio, oculto ou declarado. Se quem fala de asfixia me souber dar algum exemplo de ausência de influência do poder político no poder judicial, não só agradeço como ficarei mais descansado.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Prefiro...

Prefiro correr o risco de dar com os cornos no volante do meu carro por incúria minha, a permitir que um qualquer burocrata decida castigar-me por pôr a minha cornadura em risco.
Prefiro correr o risco de morrer numa sarjeta por falta de ajuda a permitir que o burocrata me force um seguro de saúde que não negociei (nem aceitei), e que me sai mais caro, ao fim do dia, que um seguro de saúde privado, para o qual fiquei sem dinheiro devido à extorsão anterior.
Prefiro ser assaltado todos os dias a ser vigiado em todos os buracos e ruelas em que me passeio por câmaras que me podem filmar, até, o alívio já tardio da bexiga contra uma qualquer pública parede mais recatada.
Prefiro correr o risco de ser levado por uma qualquer onda menos socialmente consciente a ter os burocratas à perna se for dar o mergulhinho da praxe, apesar da bandeira vermelha.
...

quinta-feira, julho 16, 2009

O dedo na ferida

Que Alberto João Jardim gosta de chocar, já não surpreende ninguém. Que a imprensa nacional só dá ênfase ao que ele diz quando choca, também ninguém não é surpresa para ninguém. Sendo assim, alguém duvida que a melhor maneira de AJJ se fazer ouvir é mandar estas atoardas que muita onda e indignação levantam, mas que têm sempre uma ferroada séria? Claro que aqueles que não olham para além do acessório (e que têm todo o direito a fazê-lo), ou que o fazem, mas a quem a mensagem real incomoda, fixam-se no barulho.
O barulho, está mais que visto, é a proposta de proibição dos partidos de extrema esquerda por serem, também, proibidos partidos de ideologia fascista. Ora, na notícia da RTP, percebe, quem estiver atento e o quiser, que a crítica é a proibição à formação de partidos fascistas. Claro que AJJ também malha nos partidos de extrema esquerda, mas penso que o pode fazer num país livre... ou não?
Neste país em que a geração dos meus pais se advoga como dona da liberdade, podendo fazer com ela o que lhes apetece, todos se indignam com a parvoíce acessória de AJJ, mas ninguém se indigna com a injustiça que quem defende a ideologia fascista sofre com esta Constituição.
Mesmo que não concorde com a ideologia (o pesado controlo da economia Italiana por parte de Mussolini enoja-me), não estaria a agir de acordo com a minha consciência se não defendesse o direito dessa ideologia a ter voz política e até a ir a votos.

Também me diverte, porque não quero chorar, ouvir Francisco Anacleto Louçã dizer que devemos a liberdade à extrema esquerda portuguesa. Esquece-se do Gonçalvismo, decerto, e da tentativa de tomada do poder (porque as eleições eram desnecessárias, pelos vistos) por parte do PCP no pós 25 de Abril.

terça-feira, junho 23, 2009

Ética e valores morais II

"What, then, are the right goals for a man to pursue? What are the values his survival requires? That is the question to be answered by the science of ethics. And this, ladies and gentlemen, is why man needs a code of ethics." Ayn Rand, in The Virtue of Selfishness

Até aqui, Rand sugere que a verdadeira diferenciação entre o bem e o mal é se é bom ou mau para a sobrevivência do indivíduo. O código de ética a que ela se refere é egoísta, no sentido de colocar apenas a pergunta: em que medida é que esta opção me beneficia. O suicídio, por exemplo, só é compreensível se for mais favorável a quem escolhe terminar a sua existência. O sacrifício da minha vida em benefício da de outros não faz sentido do ponto de vista natural. David Hume escreveu, referindo-se também à escolha individual de cada um, "I believe that no man ever threw away life while it was worth keeping".
Mas Rand explica muito melhor do que eu:

"Now you can assess the meaning of the doctrines which tell you that ethics is the province of the irrational, that reason cannot guide man's life, that his goals and values should be chosen by vote or by whim - that ethics has nothing to do with reality, with existence, with one's practical actions and concerns - or that the goal of ethics is beyond the grave, that the dead need ethics, not the living.
Ethics is not a mystic fantasy - nor a social convention - nor a dispensable, subjective luxury, to be switched or discarded in any emergency. Ethics is an objective, metaphysical necessity of man's survival - not by the grace of the supernatural nor of your neighbors nor of your whims, but by the grace of reality and the nature of life." Ayn Rand, in the Virtue of Selfishness

sexta-feira, junho 19, 2009

Ética e valores morais

"The first question is not: What particular code of values should man accept? The first question is: Does man need values at all? - and why?"
Ayn Rand


"Many of them [the philosophers] attempted to break the traditional monopoly of mysticism in the field of ethics and, allegedly, to define a rational, scientific, nonreligious morality. But their attempts consisted of trying to justify them on social grounds merely substituting society for God"
Ayn Rand


Adenda: Ambas as citações são do livro The Virtue of Selfishness.

sexta-feira, maio 29, 2009

Algum dia tinha que ser

Entreguei o meu último trabalho. Foi a Dissertação de Escrita Criativa que escolhi fazer em poesia. Dezanove poemas na língua de sua majestade. Salvo alguma coisa correr mal esta fase da minha vida fica agora para trás ao fim de catorze anos de ensino superior cheio de copos, praxe, e equívocos vocacionais. Não foi cheio de mulheres, como aqueles que têm mais fé no meu poder de sedução podem estar a pensar, mas antes cheio de uma só, durante onze anos. Não me arrependo nem um pouco, apesar de agora estar a preparar-me enfrentar o mundo sozinho.
Desde cedo encontrei refúgio na escrita. Vi palavras minhas serem publicadas pela primeira vez quando tinha doze anos e confesso que me fez bem. Mas o mundo convenceu-me de que essa paixão devia ser relegada para a categoria de actividade recreativa, e que o caminho a seguir seria o da minha outra paixão. Os animais e a ciência da vida tomaram, assim, conta da minha vida académica. A escrita refugiou-se nas publicações estudantis e nas aulas menos interessantes. Muita da minha poesia nasceu entre cálculos de parâmetros populacionais e testes de chi-quadrado.
Há três e meio anos atrás decidi-me a puxar a escrita para o primeiro lugar das minhas prioridades por troca com a biologia. Tive que mudar de língua e de país, já que em Portugal não era, à altura, aceitável que uma pessoa trocasse de área académica de forma tão radical sem regressar ao ensino secundário. Não sei como funcionam essas burocracias nos dias de hoje.
Três anos depois de chegar ao País de Gales, eis-me pronto a regressar a Portugal com uns truques a mais na manga e uma vontade quase inocente de começar a trabalhar a sério naquilo que me dá mais prazer: escrever. Poesia ou prosa, tanto faz, mas escrever.
Se não chumbar nada agora, acabei. Finalmente.

quinta-feira, abril 16, 2009

Manipulação da palavra

Tenho reparado que a frase aquecimento global tem vindo a desaparecer dos meios de comunicação social. No seu lugar ouço mudanças climáticas. Porquê?

quinta-feira, abril 09, 2009

São só dois

Depois de me equipar para tratar do físico no ginásio do campus universitário, resolvi gastar algum tempo a tirar o cabelo da frente dos olhos, ou talvez tenha sido a minha vaidade o que me atraiu ao espelho dos balneários. Enfim. Em frente. Eis que este meu gesto me rendeu uma nova preocupação: dois cabelos brancos, um em cada lado da cabeça.
Conspurcado que está o maior alvo do meu narcisismo, nada mais me resta que aceitar a passagem do tempo.
Juntam-se dois cabelos ao pêlo na barba, branquinho de estimação.

terça-feira, abril 07, 2009

Só para se pensar um pouco, porque o Mundo não é perfeito

Um dos argumentos usados na defesa do controlo estatal é que as pessoas não são fiáveis, e por isso precisam de ser controladas e moralizadas. Ora, se o ser humano não é fiável, também não terá lógica que esse controle e moralização sejam feitos por seres humanos.

Não será preferível correr o risco de falhar por responsabilidade própria, que ter a certeza de que não se atingirão os sonhos por imposição alheia?

terça-feira, março 31, 2009

Corrida às armas

Para se parar a criminalidade violenta dificulta-se o acesso às armas a quem cumpre a lei. É esta a reacção alérgica dos sucessivos governos deste nosso pesado e paternal estado.
De cada vez que se vê um cidadão obviamente muito pouco cumpridor da lei apontar uma arma à cabeça de um cidadão legalmente desarmado, os nossos legisladores correm para os seus gabinetes rabiscar formas de dificultar o acesso a essas ferramentas de má fama. Tanto quanto me é dado a perceber, os cidadãos que dão uso a essas ferramentas no exercício da antiga arte de suprimir a propriedade alheia, não passaram pelos morosos processos burocráticos eu, cidadão cumpridor da lei, terei que passar para adquirir a pistolinha que o legislador considera apropriada. Nem algumas das armas usadas pelos cidadãos que apontam e disparam contra os agentes da autoridade estão dentro do grupo aceite pelo burocrata. Têm mais poder de fogo, admitamos.
Sendo assim, o cidadão cumpridor da lei não possui arma ou, se se aventurar a passar pelo processo burocrático exigido, está em desvantagem em termos de poder de fogo. Quem não cumpre a lei e escolhe subtrair o fruto do trabalho do concidadão à força da arma de fogo, não passa pela burocracia imposta pelo bem-intencionado legislador.
Sabendo disto, o patife armado sabe que é pouco provável que a sua vítima esteja capaz de se defender, e não terá de pensar duas vezes antes de puxar da fusca e pedir, educadamente, que o trabalhador que até paga impostos lhe providencie liquidez sem muito trabalho e pouco risco.

sábado, fevereiro 28, 2009

Segurança a três tempos (capítulo 3º)

(continuação) (começa aqui e tem este entretanto)


Já com o passaporte de volta à minha mão, devidamente acompanhado pelo cartão de embarque, decidi-me a passar pela segurança antes que perdesse o vôo, que era já daí a duas horas e meia. Passei, descontraído, descalço, e sem cinto por dois postos de controlo, sempre de passaporte e cartão de embarque lado a lado. Já na fila para embarcar, resolvi fazer algo que podia ter feito logo no balcão de check-in. Olhar para o cartão de embarque. Pedro Gonçalves. Pedro Gonçalves? Resolvi verificar o meu passaporte, não fosse eu estar errado, confirmando que me chamo realmente Gonçalo Taipa Teixeira. Passei, lembro, por dois controlos de segurança de passaporte em punho e talão de embarque ao lado. Ninguém viu nada. Resolvi disfarçar, a ver se a apertada segurança me deixava embarcar em nome de outra pessoa. Mas a Espanhola que horas antes me tinha ajudado com o Português reparou que os nomes não coincidiam. Comentou, a esperta hermana evidenciando uma perspicácia fora do comum, que devia ser por isso que não estava registada nenhuma reserva para a minha bagagem. De seguida, e sem grandes burocracias, a simpática morena resolveu o problema com mestria: traçou um risco a caneta azul por cima de Pedro Gonçalves e escreveu Almeida, Gonçalo Taipa no passe de embarque...
Ao entrar no avião, outra coisa me veio à cabeça: a minha mala estava com o nome errado, e havia uma reserva de uma mala que não tinha sido registada. "Vai dar confusão", pensei eu. Adivinhei.
Já sentado e sem saber se me ria ou ficava nervoso, fiquei a ver o pessoal de cabine a entrar e a sair do avião, a chamar o piloto, e este a pegar no intercomunicador para chamar o senhor Pedro Gonchalves (o cedilha faz-lhes confusão, compreenda-se). Não sou eu, fiquei sentado. Um rapaz foi lá à frente e foi levado porta fora. Provavelmente era ele o Pedro. O Sr Gonçalves sentou-se e o piloto pegou no intercomunicador de novo, desta vez para perguntar se havia no avião alguém chamado Almeida. Levantei o braço. O comissário veio pedir-me que o acompanhasse lá à frente. A minha pequena mala azul-escura estava tristemente pousada no topo da escada, à espera que eu a confirmasse como minha.
Depois de tudo isto, cheguei ao Funchal com uma mala que se declarava como sendo de outra pessoa, mas cheguei seguro. Muito seguro.

Segurança a três tempos (capítulo 2º)

(continuação) (começa aqui)


Passo a contar-vos:
Tudo começa no balcão de check-in do aeroporto de Bristol. Entreguei o meu passaporte para que a menina, branca, loura e roliça como uma Britânica tende a ser, encontrasse a minha reserva e verificasse a minha identidade. Encontrada a reserva, ela anuncia-me que vou ter de pagar pela peça de bagagem que acabara de declarar que queria mandar para o porão, já que na minha reserva não havia registo de eu ter pago tal serviço. Fui assertivo na minha garantia de que o tinha feito, ao que ela me pediu que provasse o dito pagamento. Só tinha uma coisa a fazer: ligar o meu Mac e mostrar-lhe o ficheiro PDF da reserva, onde o pagamento em causa vinha registado. Só depois de abrir o ficheiro se tornou evidente que a coisa não seria fácil. Eu tinha efectuado a reserva na minha língua materna, pelo que a simpática menina, conhecendo apenas linguagem de Shakespeare e J.K. Rowling, não podia entender muito mais que a imagem de bagagem e o dígito 1 ao lado. Isto confundiu a loura cabecinha. Por sorte (ou talvez não), a menina que atendia no balcão contíguo era do país das touradas e tomatadas. Demorou algum tempo até perceber que o "O" que estava por baixo do tal símbolo de bagagem (acompanhado de um número um, volto a lembrar) não era um zero, mas o equivalente ao "El" na língua da família Iglesias. "O passageiro" era o que se lia. Chegou ao ponto em que as duas, simpáticas e solícitas que eram, lá me permitiram embarcar a malinha sem pagar mais um pence. Um favor, fiquei com a impressão.


(continua)

Segurança a três tempos (capítulo 1º)

Quem, daqueles que têm contacto mais próximo e regular comigo, nunca me ouviu queixar, como um velho disco de vinil riscado, sobre as peripécias a que nos obrigam nos aeroportos nos dias que correm. A enervante gincana que nos impõem em nome de uma segurança bacoca faz-me desesperar quase sempre, mas também já me deu uma ou duas histórias (resisto, ainda, a "estórias", e o verificador ortográfico do editor do blogger concorda comigo) que me deram algum gozo e me permitem escarnecer do processo.
Foi aquela do senhor de meia-idade que resolveu responder ao segurança dos sapatos, no aeroporto de Gattwick, e quis ter certeza de que tinha autorização para se calçar depois de ver o seu calçado ser devidamente perscrutado aos raios X. O segurança ficou calado enquanto o senhor, sorridente, lhe citava Lord Acton: "All power corrupts." Levado pelo momento, eu próprio completei "Absolute power" e ele entrou em sintonia comigo "corrupts absolutely."
Também houve a vez que me pediram para abrir a mochila e mostrar o carregador do meu Mac. O rapaz ficou atrapalhado quando, depois de lhe fazer a vontade, comecei também a tirar o carregador do meu telemóvel de SIM Português, seguido do carregador do telefone em que eu uso o cartão Britânico. "That's OK. That's OK" dizia-me ele, enquanto eu ainda tirava mais um fio, que ligava ao carregador do Mac. E o sorriso que certificava a minha simpática colaboração nunca me abandonou.
Mas a minha mais recente ida a casa bateu todos os recordes.


(Continua)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Londres

Estou a estudar no Reino Unido há pouco mais de dois anos e meio. Nunca pus os pés em Londres, neste período, a não ser de passagem de e para um dos aeroportos que servem a cidade. Estive lá aos catorze anos com os meus pais, e mais nada. Desde que estou no País de Gales já visitei, de forma rápida, York, Middlesborough, Bristol, Loughborough e Wrexham. Tudo por causa do futsal. Também foi através do futsal que visitei Brno (Rep. Checa), Hasselt e Bruxelas (Bélgica). Pretendo, ainda antes de ir embora de vez, ir com a equipa a Totelos (Holanda) e Erdre, mas entretanto vou calar todos aqueles que me criticam por não dar um pulo a Londres. Vou este fim-de-semana à capital do Reino Unido, a ver se me entusiasmo.
Eu gostei da minha primeira visita, mas era novo e estava ansioso por testar o meu domínio da língua Inglesa. Hoje a língua de Sua Majestade é a língua que ouço e uso todos os dias mal saio de casa. Mesmo em casa tenho que a usar, embora em quantidades menores, já que a divido com um Inglês e outros dois Portugueses.
Espero ver outra Londres sem a supervisão dos pais e já adulto. Estou curioso.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Ele há gajos com a mania (ou Parabéns, Sr Obama)

Tenho mais medo daquele que procura o poder cheio de boas intenções, que daquele que o faz com as piores das intenções. É mais fácil defender-me das más intenções.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Desafiado que fui...


... pela Elise, aqui vai:

A foto:  um dos meus amigos em quem confio cegamente:

A banda: Nick Cave and The Bad Seeds

1. Homem ou mulher?  O meu pai
2. Descreve-te:  Free Bird (Lynyrd Skynyrd)
3. O que pensam de mim?  Milk and Alcool (Dr Feelgood)
4. Descreve a tua última relação:  Jilted John (Jilted john)
5. Descreve o estado actual da tua relação:  Loved Ya to Pieces (Phantom blue)
6. Onde querias estar agora?  The Upstairs Room (The Cure)
7. O que pensas do amor?  Fool in the Full Moon (Violent Femmes)
8. Como é a tua vida?  Dancing With Myself (Billy Idol)
9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo?  Freedom (Rage Against the Machine)
10. Escreve uma frase sábia: Stop Your Sobbing (The Pretenders)

Vou passar esta corrente a:


... e porque não me apetece, a esta hora, chatear-me a procurar mais gente a quem desafiar.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Frio? Naaa!

Aqui estou eu de volta ao Reino Unido. Está um frio de rachar. Mas nada de mais se me lembrar que amanhã parto para a República Checa para participar num torneio de futsal. Não espero apanhar temperaturas acima dos 0ºC. Mas o que mais preocupa são as sovas que o Glamorgan Academics Futsal Club vai apanhar no pavilhão. É que as outras equipas são todas profissionais ou perto disso. Como foi que nos metemos nisto?
Bem, só há uma coisa a fazer... Aprender e divertir-mo-nos um pouco.

Recta final

Cá estou eu sentado ao teclado, com a fantasmagórica luz do ecrã a servir de candeeiro para não acordar os meus pais antes da hora pretendida. Tenho as pernas um pouco doridas pela falta de alongamentos depois das duas horas de futebol com amigos na noite passada. Por vezes esqueço-me de que já não tenho 18 anos, e que o meu corpo já precisa de ajuda para recuperar de esforços físicos daquele calibre.
Estou aqui à espera que o relógio me aponte a hora certa para ir para o aeroporto. Vou directo do Funchal para Bristol. É a primeira vez que não passo pelo Porto a caminho do Reino Unido, mas a razão para que lá fosse todas as vezes que regressava da casa dos meus pais já não existe.
Mas vamos lá ao título e razão de ser deste meu primeiro post do ano. Este é o ano em que me defino. Este foi ano que escolhi para todas as grandes mudanças da minha vida, de emancipação deste trintão adolescente que se acomodou durante demasiado tempo à vida de estudante. É este o ano em que, espero com convicção, finalmente acabo um curso superior e me embrenho na vida normal de um homem da minha idade. Depois de experimentar três cursos muito diferentes daquele que agora se aproxima do fim, eis-me muito perto de ser aquilo que sonhei ser desde tenra idade.
Falta pouco, digo a mim mesmo, tremendo de medo da escalada que se avizinha, em permanente esforço para completar os desafios propostos para este trabalhoso último ano. Em pânico, confesso, por me saber próximo de largar o ninho onde me deixei estar por demasiado tempo. Ansioso por superar os meus receios e voar, sabendo que vou cair uma vez ou outra, mas na certeza de que existe um lugar para mim no mundo.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Gastronomia

Ouvi hoje o Antena Aberta, na RTPN. A pergunta do programa era sobre alimentação. Estava a dieta dos Portugueses em discussão.
Um certo espectador telefonou e apregoou aos sete ventos a sua opção alimentar. Gabou-se de boca cheia da sua dieta macrobiótica, quase vegan, pelas suas palavras, e de se recusar a comer cadáveres, cheios de toxinas e venenos afins. Parecia irritado, este participante, e bastante crítico da minha reles e mal-intencionada alimentação carnívora, que provavelmente me matará dois anos antes do meu tempo, com um sorriso nos lábios.
Será que este senhor sequer sabe o que são toxinas? E será que ele sabe de que nutrientes se priva ele por não comer carne? E mesmo que estivesse cheio de razão, por que raio acha ele que a minha opção alimentar não é tão válida como a dele? Eu não o chateio por não comer carne nem o denigro com tamanha veemência por preferir uma dieta incompleta.
Deixe-me em paz, senhor!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

É hoje que volto

Depois de entregues os trabalhos deste período que agora acaba, eis-me de mala feita para o meu regresso a Portugal, mesmo a tempo de celebrar o meu aniversário.
Como não tenho certeza de ter acesso diário à rede mundial, não sei até que ponto consigo manter este blogue actualizado. Não que ande muito assíduo ultimamente, mas...
De qualquer forma, até já.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Nunca é tarde para recordar

Este vídeo mostra como a doença do aquecimento global se transformou rapidamente numa religião dogmática. Ainda por cima o deus adorado é um deus de destruição que precisa de ser apaziguado com sacrifícios cuja necessidade não tem que ser provada. É uma questão de fé.
Vejam lá, se ainda não o fizeram, já que este vídeo não é novo e já por aí circulou.


segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cansado

Olhei para o lado. À distância de um pequeno movimento do antebraço espalhei um punhado de rebuçados embrulhados a vermelho. Atirei, à falta de outras vontades, a mão sobre os doces e tirei um dos enfeitados pedaços de açúcar. Para descansar a cabeça e contentar o espírito, digamos.
A ansiedade tomou conta do meu cérebro, que se escusou a controlar os movimentos das minhas mãos. Em piloto automático, a direita aperta o papel e a esquerda liberta o tesouro branco do embrulho enfeitado, deitando-o ao lixo, enquanto a mão direita se satisfez em segurar a inócua folha vermelho-tranparente, enfeitada nas pontas com bolas brancas de diferentes tamanhos e um gordo boneco de neve no meio que me goza de sorriso aberto.
Foi assim que me apercebi de que estou cansado.

domingo, dezembro 07, 2008

Frio... Fresquinho

Saí hoje de casa às oito da manhã para ir jogar a primeira parte do torneio universitário do Reino Unido de futsal. Dizer que estava frio é dizer pouco. O chão brilhava com os cristais de gelo que formavam uma escorregadia cobertura sobre o passeio. Os carros, à distância, eram todos brancos, sem excepção. De perto pareciam cinzentos, como que cobertos de uma camada de fuligem onde se semeou vidro moído. Só a minha cara estava à mostra. Mesmo assim o desconforto da mão gelada que nos trepa pelas costas acima era muito real. O céu limpo mostrava um sol sem calor, como se o horizonte o tivesse descoberto à força, contrariando a preguiça de pintar o relvado de branco e gelo. Se houvesse precipitação seria neve.

(Já agora, o Glamorgan Academics Futsal Club ganhou um jogo e perdeu outro)

sábado, dezembro 06, 2008

Nem sempre é tarde

Nesta manhã ainda mais fria que o fim de tarde em que escrevi o texto anterior (estamos abaixo de zero), lembrei-me de que estou prestes a passar mais um aniversário. Dois anos depois de passada a barreira que assusta tanta gente, os trinta anos, eis-me mais jovem que nunca. Pronto... Nunca é exagero, mas se adivinhar algo como nos últimos dez anos, talvez acerte. Isto porque estou na melhor forma física que estive nesse período de tempo. Alimento-me melhor, o álcool já não me incha o estômago nem me confunde a memória, e o exercício físico destes últimos dois anos e meio, desde que vim estudar para o País de Gales, começa confirmar-se como eficaz.
Até fui convocado, entre uma melhor leva de jogadores de futsal, comparada com a do ano passado, para mais um torneio, amanhã. Não esperava, até porque o outro defesa (ou fixo) que tinha comigo o recorde de convocatórias não o foi. Tenho sete anos mais que o jogador cuja idade se aproxima mais da minha, mas sinto-me bem tanto na rapidez da corrida como na recuperação do esforço. Estou mais leve, o mais leve que estive durante o período de tempo que arrisquei no princípio, e isso deixa o meu ego em boas condições.
A ver vamos se chego aos quarenta nestas condições. Depois pedirei mais dez anos. Mas não me vou adiantar. Cuidar de mim, para mim, dá melhores resultados que outras motivações que experimentei. Egoísmo, para ser feliz.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Frio

Está frio por estas paragens. Um frio seco que se instala na pele e nos domina os movimentos. É um encolher de ombros permanente na tentativa de esconder o nariz e a nuca embrulhados naquele cachecol que a minha irmã me ofereceu. Ou a contracção constante de todos os músculos do ventre em tremores espontâneos tentando juntar-se todos na caixa toráxica à procura do calor do coração. Apesar das espessas luvas, as mãos parecem perras na sua posição de garra fechada, não vá a pele que queima de frio começar a cair, alienada. Está tanto frio que as pernas cansadas se recusam a parar, seja para fazer mover o mundo à minha volta, ou marchar sem ritmo nem sentido enquanto as educadas respostas se apressam, condensadas, sorridentes e económicas. Já os pés, embrulhados na espessa meia e escondidos na bota nervosa, deixam-se estar esquecidos na marcha seca que vai servindo de desculpa para que o sangue ainda desça à ponta dos dedos, a medo.
Estou só à espera que neve. Ou que chova. Mas nem a neve é assim tão comum neste bocado do País de Gales, nem a chuva faz o favor de aquecer o ar, por dois graus que sejam.
O céu parecia gozar comigo de tão azul que estava quando fui para a minha primeira aula do dia. Mas não era o pálido azul de um dia morno de fim da primavera na minha ilha natal. Era um azul claro mas pesado como numa piscina funda e fria. Este é um céu que deixa o sol à solta nestes olhos já habituados ao cinzento destes deprimidos vales do sul de Gales, mas que lhe tira a cor que nos aquece a cara. Nem uma leve lembrança de verão me foi permitido sentir no escasso toque deste sol amedrontado.
Só os trabalhos de curso que vou fazendo me distraem os sentidos. E saber que dentro em pouco estarei de volta a Portugal distrai a solidão do ecrã em que escrevo.

terça-feira, novembro 25, 2008

Intimamente

Quando sinto que tenho o ego em baixo e que nada me corre a favor, devo recorrer à única pessoa com quem posso contar sempre, mesmo na solidão mais profunda. Devo recorrer a mim.
Mas nem sempre é fácil fazê-lo nesta sociedade em que o que parecemos ser por vezes é mais importante do que aquilo que realmente somos.
A solução está no egoísmo.

sábado, novembro 22, 2008

Fui lendo...

"Public opinion is the worst of all opinions" Chamfort, Sebastien-Roch Nicolas

"The value of legislation as an agent in human advancement has been much over-estimated. No laws, however stringent, can ever make the idle industrious, the thriftless provident or the drunken sober." Smiles, Samuel

(acerca da segurança social) "It will not do to teach the hard-working, industrious man that there is an easier path by which his wants can be supplied. The less emotion the better.Neither the individual nor the race is improved by alms-giving. Those worthy of assistance, except in rare cases, seldom require assistance. The really valuable men of the race never do." Carnegie, Andrew

sexta-feira, novembro 21, 2008

Muitas palavras...

Neste curso em que me embrenhei de alma e coração avaliam-me não pelo que decoro nos livros técnicos, mas por aquilo que produzo dentro daquilo que me é pedido. Tenho mais liberdade numas cadeiras do que noutras, nada de inesperado, mas não tenho que fazer qualquer tipo de exame. Para mim, é ouro sobre azul. Sempre preferi mostrar o que sei fazer do que marrar matéria que, muitas vezes e de tanto estudar, deixa de fazer sentido.
Mas estou agora no terceiro e último ano. É, de longe e com pouca surpresa, o mais trabalhoso. Tenho duas cadeiras que me vão exigir 12 mil palavras no final do ano cada uma, mais uns trabalhinhos pelo meio entre mil a 3 mil palavras cada. Outras duas exigem só 6 mil palavras no fim do ano cada, e os trabalhos paralelos como as duas anteriores. Ainda tenho mais uma cadeira que me exige só dois trabalhos de 2500 palavras cada um. Mas estes trabalhos são mais difíceis e são aqueles em que terei menos liberdade criativa. São ensaios técnicos, pronto. O primeiro destes dois ensaios terá que ser entregue no próximo dia 9 de Janeiro.
Como não quero levar muito trabalho para Portugal, vou ter que preparar e escrever este texto nestas semanas que faltam até o fim do ano, para além de continuar a escrever e reescrever os textos criativos para as outras cadeiras. Vou ter pouco tempo para a vida pessoal. Vou ter pouco tempo para outros prazeres que não o da escrita.
Valerá a pena. Sempre.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Empregos por encomenda

Se é obrigação do estado dar emprego a todos quantos tiram um curso superior apenas porque têm um canudo, então esperem pelo fim deste ano lectivo. Terei, então, razões para exigir um emprego. Mas não o farei. Não o farei porque escolhi o curso que escolhi, depois de muito experimentar, infelizmente, apenas porque sinto que tenho vocação e muito gosto em fazer aquilo para que agora me preparo. Escolhi até um curso que não me dá garantias nenhumas de sucesso a não ser por acreditar nas minhas próprias capacidades e talentos.
Quando vejo os enfermeiros exigirem que o Serviço Nacional de Saúde os contrate, não consigo deixar de pensar na mentalidade estúpida que grassa o meu país em relação ao ensino superior. Estes cidadãos que tiraram o curso de enfermagem não o fizeram por gosto, fizeram-no pelo emprego. E é assim com muitos cursos e profissões. Muito pouca gente em Portugal escolhe um curso baseado no seu gosto ou nos seus talentos. É sempre a chave para uma profissão que procuram, muitas vezes nem interessa qual.
Até o primeiro argumento que ouço chorado nos telejornais nacionais é de que existem muitos licenciados em enfermagem a sair directamente para o desemprego. Ora, se alguém os obrigou a tirar o curso, peçam responsabilidades a essa pessoa ou entidade. Se ninguém os obrigou, que assumam eles a responsabilidade da sua escolha. E se, como se argumenta depois, existe falta de enfermeiros no SNS, então porque é que a procura é baixa? Se houvesse assim tanto lugar por preencher os empregadores estariam um pouco mais próximos do desespero e ofereceriam melhores contratos, com a muito exigida efectividade e tudo.
Também já ouvi dizer que os enfermeiros merecem consideração especial porque tiram o curso motivados pelo serviço em prol do próximo. Se assim fosse não reclamariam estatuto, como fazem nas suas batalhas quixotescas para não se sentirem inferiores aos médicos, nem contratos assim ou assado. Os enfermeiros, como os médicos, os professores, os carpinteiros, etc., estão na profissão que estão para ganhar dinheiro vendendo serviços, de preferência fazendo uma coisa de que gostam e para a qual sentem que têm vocação. Se assim não é, tenho pena.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Outros se anteciparam

Estive a pôr os meus telejornais nacionais em dia, quando vi a notícia de que a benevolente Comissão Europeia (dos burocratas da vida alheia) resolveu permitir que se vendessem alguns vegetais fora das medidas e cores que eles próprios tinham decidido ser mais adequadas. Pensei de imediato em mandar a minha boquinha, mas Francisco José Viegas antecipou-se.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Lua cheia - celebração

Hoje à noite fui visitar uma amiga. Nada de transcendental. Nada de colorido. Uma amiga que vive a cinco minutos de distância e que muito me atura, esteja eu eufórico, cabisbaixo ou assim-assim.
Para lá fui cheio de frio. Coberto com quatro camadas de roupa no tronco, duas delas bem volumosas e quentinhas, e luvas como nunca usei em Portugal. Depois da conversa entre duas canecas de chá de limão, tive que me vir embora antes que ela me pusesse na rua à força, já que tem aulas de manhã. E quando saí o frio continuava lá. Mas as luvas ficaram nos bolsos do sobretudo que ficou por fechar. Só porque olhei para cima e vi o céu.
A lua cheia a rebentar não era suficiente para apagar a constelação Orion, a minha favorita. Via-se tudo naquele céu, uma raridade por esta bandas de nuvens persistentes.
Já vos disse que a lua está cheia lá fora? E linda, como deve ser sempre. E pensei no meu novo primo nascido esta segunda-feira, ao final da noite. Faz agora vinte e seis horas que abriu a goela para dar o seu primeiro grito de liberdade. Provavelmente quis sair a tempo de ver a última gota de luz encher a lua.

terça-feira, novembro 04, 2008

O último estertor

Depois de demasiado tempo na vida de estudante, que me rendeu amigos e experiências de vida únicas mas que me custou uma namorada e demasiados anos à minha carreira, eis-me chegado àquele que será o meu último ano exclusivamente de estudante.
Tinha-me decidido a fazer deste um ano mais calmo e dedicado à preparação da minha vida futura como homem trabalhador. Já vai sendo tempo. Sendo assim, a cerveja diminuiu. As saídas são mais curtas e menos frequentes. Mas o futsal lixou-me os planos todos...
A jogar futsal com jovens, em que os dois mais próximos da minha idade são sete e oito anos mais novos, e na sua maioria britânicos, vejo-me hoje confrontado com uma actividade usual entre estes malucos. Eles não têm as minhas adoradas praxes mas, em contrapartida, têm hábitos nas equipas desportivas nas universidades. Digamos que são actividades de união de grupo. Nada contra, diria eu, se não soubesse em que consiste a dita actividade.
Sendo assim, a não ser que me recuse a fazê-lo, amanhã vou fazer algo que nunca pensei fazer, muito britânico e em prol do bom ambiente e união de balneário da equipa. Vamos todos a uma festa na associação de estudantes em trajes pouco recomendáveis. Qualquer fotógrafo que me aponte a objectiva será visto como inimigo e não me responsabilizo pelas consequências.
Assim, toda e qualquer foto que aparecer, seja em que site for, deve ser encarada como montagem e afastada da realidade. Um devaneio do fotógrafo, digamos.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Ora bem...

Paulo Portas considera que a proposta do governo para multar as empresas que não entreguem o IVA à horinha, mesmo que ainda não tenham sido pagos pelos seus serviços (pagamentos, esses, o alvo da tributação), é "uma extorsão fiscal". Tem razão, o dirigente do PP, mas não disse tudo: cobrar impostos é extorsão.

O Pastor Metodista de Little Rock, Arkansas, Hezekiah David, considera que ter um negro como candidato favorito à presidência dos EUA é "obra de Deus". Assim se vê que, para este senhor de nome tão Bíblico, a eventual eleição de Obama para a presidência daquele país de fanáticos é uma questão racial, para além de religiosa. Tudo factores a considerar com agrado quando se está a escolher alguém que vai ocupar um cargo com demasiado poder sobre as vidas dos seus cidadãos.

A sondagem caseira

Numa sondagem aqui no blogue, pedi a quem lê as minhas baboseiras que me ajudasse a escolher uma nova assinatura. O resultado da dita cuja não deixa dúvidas que os progressistas perderam, como de costume, na inglória luta contra os conservadores que se recusam a mudar o status quo. A questão que agora se põe é se eu, soberano que sou da minha individualidade e do que eu me quiser chamar, acato a sugestão ou não...

quarta-feira, outubro 29, 2008

Ainda não chega, pelos vistos

Vi hoje, através do site da RTP, o programa Prós e Contras de segunda-feira passada. Falava-se das crises, principalmente do mercado imobiliário e de arrendamento. A conclusão a que cheguei, depois de ouvir tantas doutas opiniões, é que, depois de décadas de restrições de mercado e sábios regulamentos, a solução exige mais restrições e mais regulamentos. Não se aprendeu nada com o passado.

sábado, outubro 25, 2008

Lealdade

Não sei porquê, mas hoje dei por mim a pensar sobre lealdade. Nos tempos que correm é um valor raro. Alguns podem contrapôr que até existe em exagero nos dias que correm, e referir-se-ão, deduzo eu, às lealdades mal dirigidas dos clubismos, partidarismos e coisas afins. Não tenho consideração por esse tipo de lealdades, de que eu próprio partilho em termos clubísticos mas sempre com capacidade crítica e na brincadeira. Não direi que não me deixo levar, por vezes, nalguma parvoíce que tenha a haver com os clubes do meu coração, mas posteriormente sou capaz de descer do púlpito do pregador cego e gozar comigo mesmo. Nem que seja em privado.
Mas a lealdade a que me refiro, a única real e de valor, a meu ver, é a lealdade para connosco. Eu sou leal a mim mesmo. Isto quer dizer que farei os possíveis para não quebrar a minha palavra, por exemplo, sob pena de perder o respeito dos outros ou, mais importante, o meu respeito próprio. Por isso não nego as minhas crenças, as minhas ideias, os meus sentimentos. Tento sempre ser-lhes leal com maior ou menor dificuldade.
Hoje em dia o indivíduo é ensinado desde pequeno a sobrepôr a lealdade para com o grupo (no final das contas, para com o estado) à lealdade que ele deve a si próprio. Apaga-se assim o amor-próprio e o orgulho do indivíduo. No fundo, o próprio indivíduo esbate-se contra o pesado muro da engenharia social, sempre estudada, analisada e posta em prática por pessoas cujos méritos desconheço e cuja autoridade sobre a minha vida privada não reconheço. Mas como o cidadão está treinado a esquecer a honra e o amor próprio, permite que tudo aconteça.
Sem lealdade a si próprio, o indivíduo adopta a moralidade dos regulamentos e rege a sua vida pelos princípios que os engenheiros sociais (sejam eles quem forem) decidem ser os correctos.
A palavra é substituída pela desconfiança, a honra pelo politicamente correcto. Até o amor pelo próximo é esquecido, entregue que fica à ausência de amor próprio e de lealdade do indivíduo para com os seus valores.

domingo, outubro 19, 2008

Discriminando a parvoíce e a treta

Discriminação. Aí está uma palavra cujo significado tem sofrido algumas alterações ao longo dos anos. Ou talvez não. Fui ver. No dicionário online da língua portuguesa, no site da infopédia, a entrada da palavra discriminação tem uma primeira definição que diz: "acto ou efeito de discriminar; separação, destrinça". Até aqui, tudo bem. A segunda entrada também não espanta ninguém, definindo discriminação como "capacidade de estabelecer diferenças claramente; discernimento, distinção". Estas duas definições completam-se e, mais importante, não parecem atropelar-se nem moldar razões. Digamos só que não são definições carregadas com energias educacionais e de moldagem da moral colectiva.
A terceira definição tende para o discurso politicamente correcto: "acção de tratar pessoas ou grupos de pessoas de forma injusta ou desigual, com base em argumentos de sexo, raça, religião, etc.; segregação". Depois continua com definições de discriminação positiva e negativa, dentro desta terceira definição, como actos políticos e de engenharia social, ocultando o facto de que uma não existe sem a outra. Ou alguém acredita que é possível discriminar positivamente um grupo sem discriminar negativamente todos aqueles que não pertencem a esse grupo? Mas voltemos à discriminação propriamente dita, versão três.
Qualquer tipo de discriminação implica um tratamento diferenciado de um indivíduo, ou grupo de indivíduos, em relação a outro ou todos os outros. O acto de a minha mãe me chamar a mim e não a minha irmã, por exemplo, é discriminatório, e baseado em vários factores, muitas vezes incluindo sexo, tamanho, e/ou cadastro. Sendo assim, esta última entrada é redundante em relação às outras duas.
A única diferença, e era aí que eu queria chegar, é que se fazem julgamentos de valor. A injustiça da discriminação é moral, ou seja, cultural, e apresenta variabilidade. Se me disserem que estou errado por considerar a homossexualidade uma doença, por exemplo, e por isso me insultam (como já aconteceu), estão a discriminar-me. Se essa discriminação é injusta ou não, cabe a cada um decidir.
Quanto à palavra desigual, usada na definição de discriminação, é uma verdadeira treta. Qualquer discriminação conduz a desigualdade, negativa, positiva ou até mesmo neutra. Ou será que quando entro num bar e pago uma rodada aos meus amigos, não os estou a discriminar positivamente pela relação que tenho com eles, discriminando negativamente todos os outros presentes no bar? Estou a dar tratamento desigual...
A manipulação da linguagem é cada vez mais evidente para quem vai prestando atenção. As ideologias infiltram-se na nossa bela língua, manipulada por pessoas que só desejam ter razão, nem que para isso tenham que retirar as palavras à argumentação contrária. Vejam-se palavras como democracia ou liberdade... Que significaram noutros tempos, e que significam agora?

sábado, outubro 18, 2008

Isto de ser trintão nem é assim tão mau

Já passei a barreira dos trinta. Não será uma grande revelação para quem me conhece ou se dá ao trabalho de ir ver o meu perfil. A passagem em si foi pouco festiva... Até incluiu uma agressão infantil e pouco leal, como aqui descrevi.
Devo dizer que não me afectou muito, esta passagem, até porque já sentia a estabilidade emocional necessária para já não me ver como um jovenzito cujas opções poucas ou nenhumas consequências acarretam.
Não negarei que houve uma ou outra situação em que senti que o tempo me queria morder a juventude, arrancando alguns pedaços à juventude que ainda me resta. Houve a ocasional tentação feminina que me entrava olhos adentro e mexia com as entranhas, fazendo-me lembrar do meu compromisso com a mulher que na altura me povoava os planos de vida. Também senti, de vez em quando, maior dificuldade na recuperação física depois de um jogo de futsal ou de uma sessão de ginásio.
A funesta sensação de que Cronos me persegue tornou-se mais forte e nefasta quando os planos que me seguravam o ego foram atirados ao escuro rio da incerteza. Pensei que estava acabado, com trinta e um anos e sem vislumbre de carreira segura. Pensei que nenhuma mulher alguma vez se interessasse por mim.
Hoje vejo que estava errado. Nem o meu físico está assim tão mal-tratado, nem a minha carreira, que se afigura como uma aposta algo insana, assusta assim tanta gente. Antes pelo contrário.
Acabei de saber que fui outra vez aceite na equipa de futsal, apesar a concorrência de rapazes dez anos mais novos que eu, cheios de energia e habilidade. Entre mais de cinquenta candidatos, vinte e dois foram escolhidos. E eu, com quase trinta e dois anos, pouca habilidade, mas muita vontade, entre estes últimos.
Se juntarmos a isto as danças de salão em que me vou desenrascando bastante bem, posso dizer que este trintão está aí para as curvas. E isso de dizer que pretendo escrever para ganhar a vida, afinal não afasta assim tantas mulheres. Algumas até gostam da ideia, vá-se lá saber porquê.
É por isso que vos digo: não se assustem com as três dezenas. Levam algumas coisas, é verdade, mas trazem outras mais duradouras, mais procuradas.

Nota: Eu tenho perfeita noção de que este texto, como outros que aqui tenho escrito, me fazem parecer convencido. Se calhar é porque sou. Se calhar...

terça-feira, outubro 14, 2008

O Gótico e Rosseau

Alguns dos que lêem este blogue sabem que estou a tirar um curso de artes no País de Gales. Creative and Professional Writing, para quem tiver uma curiosidade especial por pormenores. Esta malta das artes, regra geral, é muito dada a socialismos e anarquias mal amanhadas, mas sempre com a convicção de que a arte é a razão de ser do ser humano e da sociedade. Sempre que a política aflora num qualquer assunto literário, eu vejo-me sempre a braços com a a solidão de quem rema contra a maré. Para ser justo, devo dizer que tenho encontrado alguns professores, principalmente os da escrita criativa, que não me tentam calar a retórica. Um ou dois até já se juntaram a mim uma vez ou outra. Mas os responsáveis pelas cadeiras mais formais da linguagem e da literatura afinam pelo diapasão da igualdade musculada e outras falsas bem-aventuranças do género.
Dito isto, podem imaginar o meu espanto quando uma professora minha de literatura nos fornece um auxiliar didático em que Jean Jacques Rousseau é citado. Isto só para ilustrar a rebeldia da literatura gótica Galesa em relação ao agressor Inglês. E que citação! A ler:

"Before art had moulded our behaviour, and taught our passions to speak an artificial language, our morals were rude but natural... Compare without partiality the state of the citizen with that of the savage... you will see how dearly nature makes us pay for the contempt with which we have treated her lessons." Jean Jacques Rousseau, 'Discourse on the Origin and Foundation of Inequality Among Men', 1755

E esta, hein? Fernando Pessa

sexta-feira, outubro 10, 2008

Nem no cravo, nem na ferradura

"O grupo parlamentar do PS vai apresentar amanhã uma declaração de voto, após a votação dos projectos de lei do Bloco de Esquerda e de os Verdes sobre o casamento entre homossexuais. Apesar de votarem contra os diplomas, os deputados explicam que estão a favor da união entre pessoas do mesmo sexo." in Público

Dão uma no cravo, outra na ferradura. Mas o que eu queria mesmo é que não martelassem nem num, nem noutro. Que raio de mania de se meterem na moral e na vida privada do cidadão...! Se ainda prometessem tirar o casamento das unhas do estado, eu seria dos primeiros a aplaudir.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Originalidade... Népia

Devem ter notado os mais atentos que estou a pensar em mudar o nome com que me apresento neste blogue. Pensei em Gonçalo TT, de Taipa Teixeira. Acontece que, como muito bem lembrou a Sabores em comentário ao post anterior, o meu cunhado novo em folha tem por iniciais TT. É, aliás, tratado por alguns amigos por TT. Ora, para alguém que está a estudar escrita criativa, configura-se na minha sugestão uma grande falha de originalidade. Enfim...
Mas a Sabores sugere uma solução alternativa que me agrada, pois já muita gente me trata por Çalo ou Çalinho, mas peca por não ser uma grande mudança em relação a Gonçalinho.
Por tudo isto interrompi o inquérito anterior e substituí-o por outro, para que me ajudem a pensar no assunto, já que esta cabeça anda um bocado ocupada. Agradeço antecipadamente.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Admirável Mundo Semi-Novo

Apesar dos muitos avisos, tanto históricos como literários, acerca do perigo que a liberdade de uma sociedade corre cada vez que se propagam medos, ameaças e oportunistas promessas de segurança, o mau agoiro não desaparece. Diria mesmo que este mau agoiro já evoluiu para além de si próprio e é já uma realidade. Realidade que muitos indivíduos já nem negam, apenas o justificam e com ela colaboram. Estes indivíduos armam-se de boas intenções e de grandiosas ideias acerca da construção da sociedade perfeita. Assim alguns entregam a condução da sua vida a outros, e forçam terceiros a fazer o mesmo com a desculpa de que se não colaborarmos todos, a sociedade perfeita não pode tornar-se uma realidade. Começa aí aquele que me parece ser o maior problema desta filosofia: como é possível chamar perfeita a uma sociedade que ameaça com violência (subtracção de propriedade, inibição da liberdade de movimentos ou até mesmo violência física) um só que seja dos seus membros, simplesmente para que possa existir?
Não é perfeita, nem admirável. É ditadura.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Dança e o indivíduo

Fui hoje ter umas aulinhas de dança. Não é a primeira vez que me interesso por danças que exigem pares. Na minha pré-adolescência frequentei aulas de danças de salão e não me safei mal, penso eu. Mas o meu professor da altura ensinava os passos das diferentes danças isoladamente, o que me obrigava a descobrir por mim formas de os juntar a todos num movimento fluido e coerente. E nem eu, nem o resto da turma, nos dávamos mal nessa aventura.
A dança a que hoje me entreguei é coisa nova, pensada para ser dançada com quase todo o tipo de música, e o método de ensino é do tipo industrial. Põe-se toda a gente em linhas de pares e ensinam-se sequências curtas de passos por imitação do casal de professores. Eles explicam enquanto fazem, eles próprios, as sequências. Depois de ensinadas duas sequências, é-nos explicado como juntá-las, e depois a terceira sequência é ensinada e eventualmente colada à corrente de sequências. Uma linha de montagem, portanto, que ensina e imprime um certo comportamento previsível a uma massa de indivíduos. Enquanto ali estamos, somos uma massa que se move em uníssono. O paraíso na Terra, segundo Marx e Engels, diria.
Depois de copiosas e nervosas repetições libertam-se amarras e encoraja-se os alunos a dançar livremente uns com os outros. Nestes intervalos da aula em si, para práctica livre do que se aprendeu, o aluno escolhe dançar com os dançarinos já experientes (taxi dancers, veja-se...), com outros alunos (no meu caso, com as alunas, não nos confundamos), ou simplesmente ir ao bar repôr líquidos. Mas a triste verdade é que a lição penetrou fundo nas cabeças influenciáveis dos meus colegas de aula, incapazes de dar outra sequência ao bailarico que não a previamente formatada. Assim, e apesar de menos coordenadas, continuam as peças todas a cair no sítio certo, salvo as aselhices e esquecimentos.
Devem adivinhar aqueles que me conhecem de ginja que eu não me fiquei. Sem grande alarido, resolvi assegurar-me de que a minha individualidade criativa não seria macerada à exaustão naquela linha de montagem. Depois de uma caneca de cerveja, agarrei na taxi dancer do sexo oposto e comecei por seguir a sequência. Depois de duas voltas à coreografia, comecei a misturar os passos. Depois foi a vez da professora, com quem nem me dei ao trabalho de seguir a ordem formatada, e ainda lhe juntei dois ou três passos das minhas danças de salão guardados nas memórias felizes do início da puberdade. Continuei, depois, a  espalhar a minha revoluçãozita pelas alunas.
Ninguém se magoou, nem ninguém deixou de se divertir por causa da minha rebeldia individual. Nenhuma das minhas parceiras desaprendeu os passos. Se algo mudou, foi que as alunas tiveram que se deixar guiar por mim, em vez de se anteciparem à sequência, como deve ser para que a beleza de dois corpos em conversa sensual seja mais evidente. Se assim não for, os dançarinos não passam de autómatos sem vida.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Tolerância e tal

Hoje em dia ensina-se às nossas crianças que tolerar é aceitar aquilo de que não gostamos nos outros. Não temos que aceitar nada que não queremos o não gostamos nos outros, por mais infundada ou estapafúrdia seja a razão. Tolerar é não interferir negativamente na vida alheia, por mais repugnante que nos seja o hábito, o credo, a ideologia, a estupidez ou outra coisa qualquer, incluindo uma característica física.
Se um indivíduo odeia pessoas que coçam a virilha, tem todo o direito a fazê-lo, e ser-lhes-á tolerante enquanto não pretender bani-los da sociedade. Terá sempre o direito a banir esse hábito da sua casa. Nesse caso mantém a sua intolerância em casa, fazendo uso da tolerância fora dela.
Ser tolerante também é admitir que os outros possam ser intolerantes em relação a nós. Desde que não interfiram com a minha liberdade de continuar a fazer, dizer ou ser aquilo que tanto os chateia, eu tolero-lhes a intolerância.

Ainda nada

Continuo sem rede. E, neste caso, cedo às mariquices da segurança e evito aventurar-me sem a dita cuja. Não é o medo da queda que me inibe a verborreia: é a preguiça. (Ora contem lá os acentos e cedilhas neste texto... Irra!)

quarta-feira, setembro 24, 2008

Ainda sem rede global

Acabado de chegar ao Reino Unido para voltar a labutar pela aprovação dos professores, e tendo em conta que mudei de morada outra vez, ainda não tenho acesso à rede global em casa. Tenho que me contentar com a caminhada, curtinha, até esta sala onde me encontro, uma das duas que a University of Glamorgan disponibiliza para os alunos neste campus de Trefforest. Como será correcto assumir, os teclados são feitos para a escrita anglófona, o que me obriga a escrever códigos de html cada vez que pretendo inserir um acento ou cedilha nas palavras que aqui uso.
Por estas razões, e prometo que mais nenhuma, vejo a minha vontade de escrever no Strix aluco um pouco diminuida. Se existe alguma alma a quem este facto perturbe, nada mais posso fazer senão pedir mil perdões. Assim é a vida...!

domingo, setembro 14, 2008

O trabalho do vizinho...

Num destes programas televisivos que simulam uma discussão democrática com a participação de comuns cidadãos que telefonam a distribuir bitaites, ouvi algo que me deixou perplexo. Falava-se sobre a falta de médicos nos hospitais do estado e o conflito entre a prática privada e o serviço público. Quando um médico de trinta e poucos anos telefona e se defende dizendo que ganha muito mais trabalhando no privado, os participantes seguintes caíram-lhe em cima. Uma senhora insultou-o, que devia ter vergonha. Um antigo combatente comparou o seu serviço em prol da nação (palavras dele) ao médico, conferindo à profissão médica contornos de trabalho em nome de uma causa superior a que o indivíduo se entrega de corpo e alma, abdicando das suas necessidades pessoais.
Tenho más notícias para estes senhores. O médico é uma pessoa normal, com necessidades e desejos comuns à maioria da população. O trabalho de um médico pertence-lhe e ele tem o direito de o vender a quem quiser e pelo preço que bem entender. Ele escolhe seguir um código deontológico, mas isso não dá o direito a seja quem for exigir-lhe que trabalhe em prol de um abstracto bem comum.
Pensam, estes senhores, que o trabalho alheio lhes pertence. É a mentalidade opressiva do PRaEC (Processo Revolucionário ainda Em Curso).

Já está.

Já está. A minha irmã já é uma mulher casada, e eu um jovem trintão que se arrepende de não ter dançado ainda mais.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Cuidado com os burocratas!

Hoje foi dia de contas aos acidentes de trabalho por parte da comunicação social televisionada. Pelo menos aquela que eu vi. Esta repentina preocupação faz eriçar os meus cabelos do pescoço. Adivinha-se uma reacção por parte dos burocratas. Há quem não espere outra coisa, para contrariar as estatísticas. Porque as estatísticas são mais importantes que as pessoas, e um governo (conjunto de burocratas e reguladores, fãs incondicionais da engenharia social, que se revezam nas cadeiras de projectistas-mor da nação) pode perder votos se aquelas estatísticas, que reduzem um indivíduo a uma massa disforme de números, não derem a impressão de que este mundo anda perto da perfeição. Enquanto a liberdade definha em nome de uma sociedade desinfectada e livre de azares, aselhices e idiotices.
É de esperar que se legisle e regulamente, de forma a que os trabalhadores tenham cada vez menos liberdade de escolha em troca de segurança que, devidamente informados, os próprios podem zelar. Mas é mais fácil manter as ovelhas no curral que informá-las dos perigos e potenciais consequências de sair do curral. Para além de que há sempre uma ovelha negra ou duas que, apesar da informação, escolhem arriscar sair do curral e correr riscos. São ameaças para as estatísticas perfeitas.
Meus caros burocratas, engenheiros sociais e seus incondicionais seguidores: o mundo não é um local perfeito. "Shit happens". A minha liberdade, tal como a de cada um de vocês, é mais preciosa que as estatísticas. Mesmo aquelas que estão contra mim.

Isto dá trabalho

Depois de alguns problemas com a a recepção de rede em casa, eis-me de volta.
Acordado a estas horas, sim, num esforço de ajudar a minha irmã a dar os últimos retoques na organização do seu casamento. Isto dá trabalho, garanto-vos. E cansa de várias maneiras diferentes. Desde o esperado cansaço físico até ao cansaço psicológico causado pelo stress por que passo enquanto assisto, sem me meter para bem da minha saúde mental, nas batalhas de vontades, opiniões e dicas.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Quadros electrónicos, e interactivos, e tal

Anunciam-se quadros especiais e outras coisas fantásticas como solução para combater o insucesso escolar. Quando eu andava na escola não havia nada disso. Deve ser por isso que sou um analfabeto. Talvez deva processar o estado por isso.
Tenho que concordar que é bom para os alunos ter contacto com as novas tecnologias desde tenra idade, mas não se pense que é por isso que estas gerações serão mais inteligentes ou terão maior capacidade de aprendizagem. Nem é só porque o estado deseja combater estatísticas, em vez de deixar o indivíduo desenvolver-se livremente na sociedade, ou não, que as crianças deste país vão aprender mais e melhor.

terça-feira, setembro 09, 2008

Boas notícias, Sócrates, pá!

Pelos vistos, este ano houve menos chumbos nos ensinos básico e secundário em relação à última década. São, obviamente, boas notícias para Sócrates. O facilitismo começa a dar os frutos de curto prazo. A longo prazo também não interessa; não é Sócrates quem vai ter de lidar com os futuros mimados no mercado de trabalho.
Além do mais, Sócrates ficará contente em fazer ver a todos quantos o criticaram e apontaram o dedo, de que é realmente possível obter-se um título académico com pouco ou nenhum esforço.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Igualdade e o espírito humano

A igualdade de rolo compressor que pretende nivelar as vidas dos cidadãos, transformando os sonhos de cada um em algo de supérfluo e a evitar levantar acima do objectivo comum: A sociedade perfeita, na qual ninguém tem motivos de inveja do vizinho do lado.
Ora, se todos vivermos vidas miseráveis e sem objectivos próprios, é óbvio que ninguém deseja ter o que o outro tem. Ou seja, nada. Ou quase.
Mas é dessa inveja que nasce a ambição. E é através da ambição que o indivíduo evolui e se supera. Sem ambição, o indivíduo acomoda-se e estagna. Há invejas e ambições doentias, é verdade, mas nada é perfeito.
Esses senhores da burocracia em nome de uma igualdade forçada depressa se apercebem, no meio de todas as suas boas intenções, que a única maneira de criar a sociedade perfeita por eles imaginada, passa por suprimir as vontades e desejos individuais. Sendo assim, estes donos da razão alheia, cheios de visões e soluções para a vida dos outros, acabam por defender a igualdade moldada à força contra a liberdade e o livre arbítrio.
Além disso, o indivíduo ambicioso cria ambição à sua volta. Este indivíduo quer melhorar o seu estilo de vida, e por isso inova e quer melhorar-se a si próprio. O esforço que este faz acaba por arrastar outros com ele, seja por que trabalham para ou com ele, seja pelo exemplo que vêem nele. Mas os burocratas que tudo sabem cortam este progresso individual antes que infecte mais alguém. Tiram-lhe parte dos lucros em troca de serviços que ele não pediu, nem usa. Para que avance na sua demanda por melhores condições, vê-se este empreendedor obrigado a pagar autorizações para tudo e mais alguma coisa. Tudo isto em nome da igualdade.
Se eu não posso ter mais do que tenho, ou distinguir-me do meu vizinho pelo meu sucesso, então nem me vou esforçar. Se os mínimos para a sobrevivência me caem no colo, e a ambição de querer mais me é amputada em nome da igualdade, não me esforço.
Na constituição dos EUA escreveu-se que todos os homens nascem iguais. Isso é igualdade. Também lá está escrito que todos os homens têm direito à "pursuit of happiness". Repare-se que não diz que os homens têm direito à felicidade, antes a tentar lá chegar. Até porque quem já não tem objectivos a atingir, não pode ser feliz.

sábado, setembro 06, 2008

A igualdade entre os homens (continuação)


As pressões sociais (é comum classificar-se um vizinho que tem um pouco mais de sucesso de malandro ou aldrabão, quando não se usam termos piores) são alimentadas pelas invejas inerentes à natureza humana e pela retórica socialista, que em vez de tentar convencer o invejoso a converter esse sentimento negativo em ambição de fazer melhor, convence a população de que devem entregar toda a sua ambição ao bem comum. Existe uma cultura quase religiosa de que quem tem sucesso, o obtém através da exploração do próximo.
Mas esta igualdade de nivelamento forçado já se infiltrou nas nossas leis fundamentais. O politicamente correcto, que é o argumento mais usado para justificar a censura, assim obriga. Assim temos leis que dão mais direitos a certos grupos que a outros, com base em género, raça, inclinação sexual ou outra qualquer desculpa para reinvindicar discriminação positiva de tratamento. E falo do tratamento por parte das instituições estatais, que são as únicas que devem ser obrigadas a tratar todos os cidadãos por igual. Mas o que acontece com estas leis de equilíbrio forçado, é que os cidadãos do sexo masculino que fazem parte das maiorias raciais e não se desviam do padrão em termos de inclinação sexual, são negativamente discriminados em relação a todos os outros. Isto não é igualdade perante o estado. Há uns mais iguais que os outros, e sempre que se discrimina positivamente alguém em relação a outro, estamos a discriminar negativamente este último.
E mais ainda: estas leis não se limitam a criar discriminação por parte do estado. Elas obrigam também os privados às mesmas práticas desiguais. Os privados, que nem deviam ser obrigados a ser politicamente correctos pelo estado. Pressão social, através de pressão económica por parte da clientela, é uma coisa. Agora, retirar o direito a um privado de ser um idiota já é demais.
Igualdade entre os homens significa que não me podem impedir de ter acesso à vida em todas as opções que eu possa tomar por iniciativa própria, desde que as minhas opções não interfiram directamente com a mesma liberdade nos outros. Igualdade entre os homens não significa que se eu trabalhei para comprar um chapéu, tenha que partilhar o meu chapéu com o meu vizinho. Fá-lo-ei, se assim desejar.

A igualdade entre os homens

A religião Cristã, na qual fui educado, apregoa a igualdade de todos perante Deus. Não quer isto dizer que na hora da morte não interesse o que se fez durante a vida. Esta igualdade não é como um rolo compressor que nos mantém a todos ao mesmo nível enquanto respiramos, tornando irrelevantes as nossas boas ou más acções. Esta igualdade refere-se apenas ao ponto de partida, à forma como os Cristãos acreditam que Deus nos avalia à partida e o modelo em que se baseia para nos julgar no purgatório.
Fora da religião, e neste país de mentes lavadas pelo PREC, também se confunde a igualdade com um rolo compressor. Existe, em Portugal, uma obsessão pelo direito à igualdade, o que não é mau só por si. O problema é que se confunde a definição de igualdade. Para os socialistas deste país (e não me refiro só aos partidos da nossa esquerda, mas antes a todos quantos defendem modelos de uniformização social), esta igualdade deve ser imposta, ao contrário de praticada.
Estes ditadores da boa vontade vêem o direito à igualdade como uma desculpa para uniformizar os seus cidadãos dentro de uma sociedade sem ambições individuais, mas antes possuidora de um objectivo colectivo. É assim que a aplicação desta definição de igualdade serve como desculpa para o tal rolo compressor que nivela os indivíduos por baixo e os quebra ao menor denominador comum. Assim se domam e moldam vontades, uma vez que o indivíduo que teria ambição de se esforçar por ser melhor é desmotivado quando se depara até com a depreciação que sofre por parte dos seus pares menos ambiciosos. E isto são só as pressões sociais.
(Continua)

quarta-feira, setembro 03, 2008

Wall.e tem que se lhe diga

No fim de tarde de hoje aproveitei que ia pôr o meu fato a lavar, já que a minha irmã se casa daqui a semana e meia e eu preciso de estar no meu melhor, e fui ver o filme Wall.e. Pode parecer estranho pensar "ah, vou ali à lavandaria e aproveito para dar um salto ao cinema", mas é preciso ver que eu não tenho horários no momento. Digamos que o tempo me vai sobrando, mesmo entre os vários projectos em que me tenho embrenhado. Mas vamos ao filme.
Não quero aqui fazer grandes considerações e ou críticas muito técnicas e cinematográficas. Quero só falar daquilo que me chamou mais a atenção e do que me interessa do ponto de vista da mensagem. O filme retrata uma sociedade em que os seres humanos não fazem nada mais senão consumir. E só há um fornecedor de serviços que trata do bem-estar dos seus consumidores em regime de monopólio, incluindo as decisões acerca das modas e gostos. Os cidadãos/consumidores desta grande nave espacial quase nem se mexem, obesos e rendidos a uma vida em que as máquinas fazem tudo por eles, incluindo ver. Sim, ver. Estas pessoas vivem em cadeiras reclináveis que os levam a todo o lado, com três ecrãs holográficos à frente da cara. Por estes ecrãs eles comunicam uns com os outros, vêem as novas modas e praticam desporto. Sim. Desporto. É óbvio que dão comandos a robots que fazem a parte física por eles. Estes seres humanos decidem muito pouco por si nem questionam nada do que é decidido pelo fornecedor de serviços. Estes seres vivos prescindiram da alma pela sobrevivência. E é o pequeno Wall.e quem causa distúrbios nesta sobrevivência e os faz ver que faz parte da natureza humana arriscar-se a viver ao invés de se resignar com a sobrevivência.
Esta é uma boa mensagem para todos quantos acreditam que a sociedade humana emana do estado, e se resignam à segurança da asa paternalista deste em troca de sobreviver. Pessoalmente não quero deixar que a minha alma fique obesa e inactiva. Quero viver.

Nota pessoal: A curta-metragem que antecede o filme é hilariante. A ver (sou mauzinho, não sou?).

segunda-feira, setembro 01, 2008

Manhosos

A Brigada de Trânsito da GNR resolveu colaborar com a festa de uma concentração de Tunning controlando todos os carros que lá entrassem. E multou todos pelas alterações feitas aos carros...
Não gosto, regra geral, daquela actividade. Se esses cidadãos querem alterar o seu automóvel ao seu mau gosto, eu não tenho nada a haver com isso. E não me parece que a imagem da BT ganhe muito com comportamento tão manhoso, nem com a colaboração com leis tão fascistas como estas.